
Olhou com desprezo a imagem que via refletida no espelho. Eram seus olhos remelentos, sua cara amassada, seus cabelos bagunçados, seu mau halito matinal. Sempre fazia as mesmas coisas, repetidas vezes, sem nenhuma novidade todos os dias.
Tinha o habito de se olhar por oras, tirava a roupa, observando as mudanças que o tempo lhe trazia a medida que os dias passavam. Contava suas pintas, as cicatrizes, o molde que o corpo tinha ganho aos seus 21 anos. Assim ficava enquanto os outros dormiam, passando as horas, andando nua pela casa.
Somava as horas, os dias, os planos infindáveis. Já não acreditava em amores eternos, em juras desordenadas, em cartas febris, de papéis coloridos, de bilhetes perfumados. Seu orgulho já era maior que a saudade, engolia as lembranças, despejava por entre os livros que lia a sua shistórias de amores mal vividos.
Quantas luas como a que virá ontem, não tinha desejado ao lado dele, desejou Sois, estações, dias chuvosos, por que nada importava, nem os calores insuportáveis de agosto.
Sempre se sentia só, a medida que as músicas mais ternas soavam pelo fone do ouvido, vestindo-a de um vestido florido, olhando para o céu, de barriga pra cima, sorrindo ao vento, por que ele estava ao lado dela, de mão dadas. Desfrutando as horas esquecidas.
O procurava por entre os carros que passavam nas ruas, nas estações de trens, nas esquinas desconhecidas, e sempre o vira, com seus olhos míopes e sua barba mal feita; e na medida que aproximava via nada além mais que a miragem, sentia vertigem, os calor dos asfalto quente nos pés, que beliscavam seu rosto acordando-a.