
Um copo de cólera, era minha dose diária.
Tinha uma facilidade estupenda, como se o mundo desmanchasse a medida que seus dedos correria por entre as teclas brancas e pretas. Fechava meus olhos, e me imaginava numa vida que nunca fora minha, em dias chuvosos de novembro em que me deitava no chão da casa vazia, era minha, fria e vazia casa. Deitada de barriga pra cima, olhando para a janela embaçada pelas gotas da chuva, deixava o rádio ligado, ouvindo as mesmas notas que ele tocava. Nunca gostei de luzes, sempre pensava em tarde frias, eram as preditas, só com uma blusa de frio no corpo e os pés em meias, eu andava pela casa depois que minhas costas começavam a doer com frio do chão. Ia a cozinha, fazia um chá, sentava na cadeira sem a menor cerimônia, com os pés em cima da mesa, sempre olhando a janela, o vazio do quintal e sua grama verde.
Para ela solidão era uma escolha, não que a fizesse tão diretamente... era o modo como imaginava a vida que não lhe pertencia, a casa sempre vazia, ela tão cheia de si, que poderia dividir com o mundo se quisesse e mesmo assim teria para si. Sempre optava pela mesma possibilidade, a de não encontrar amor na vida, alguém pra dividir a cama, por muitos verões e invernos, seguidos sem interrupções, por que amores refeitos lhe parecia cansativo demais, pois já se sentia velha para muitas ocasiões.
Buscava, mas sempre achava os mais distantes, os que impossíveis de um futuro que talvez pudesse ser seu. Só encontra entre suas memórias os quartos vazios, da sua casa de chão cinzento, ela estendida no chão sempre olhando a as gotas de chuva que caiam na janela, até as suas costas doerem com frio.
Foi quando Jeff parou de tocar o piano, ela então abriu os olhos, e voltou a pedir que tocasse só mais uma vez. Ele então sorria e tocava mais uma vez, enquanto ela fechava os olhos. Só não entendia por que pedia para tocar, todas as manhãs a mesma música.
Stéfane Mesquita Paulo